Quando um caso de violência, como o do cão Orelha, provoca comoção pública e, ainda assim, parece caminhar para a impunidade, algo maior do que um processo específico começa a se romper. Não é apenas a expectativa de punição que fica frustrada; é o próprio sentido de confiança que sustenta a vida coletiva: a crença de que existem regras comuns, aplicadas com alguma equivalência, capazes de proteger os vulneráveis e conter os abusos de poder.
A percepção de que a violência “não dá em nada” é, por si só, um fator de risco social. Ela funciona como uma autorização silenciosa: se alguém consegue escapar por influência, dinheiro ou intimidação, a mensagem que se espalha é a de que a força vale mais do que a lei. E onde a lei perde valor simbólico, as pessoas deixam de investir nela, deixam de denunciar, de testemunhar, de colaborar, de esperar.
A sociedade não apenas se revolta; ela se desilude, e a desilusão é um terreno fértil para o cinismo, para o medo e para a radicalização.
É por isso que a coação de testemunhas é tão grave. Ela não é “um detalhe do caso”, mas um ataque direto ao coração da justiça. Quando uma pessoa é pressionada a se calar, a mudar versões ou a desaparecer do processo, o que se tenta destruir não é só um depoimento: é a possibilidade de verdade pública.
A justiça depende de um mínimo de segurança para que a realidade possa ser dita. Se esse mínimo é sequestrado por ameaças, compra de silêncio ou intimidação, instala-se uma espécie de pedagogia perversa: aprende-se que falar custa caro, e que, portanto, calar é mais sensato. A consequência é devastadora: quanto mais medo, menos provas; quanto menos provas, mais absolvições e arquivamentos; quanto mais arquivamentos, maior o sentimento de impunidade; e quanto maior a impunidade, mais medo. Um círculo vicioso.
Nesse clima, a indignação social costuma mudar de qualidade. No início, ela é uma demanda legítima por responsabilização. Com o tempo, quando não há resposta clara e confiável, a indignação pode se transformar em desespero moral: uma sensação de que “não existe mais saída”. É aí que surgem os cenários mais perigosos. Um deles é o desejo de justiça com as próprias mãos. Não como uma tese, mas como impulso: a ideia de que, se o Estado não age, alguém “precisa agir”. Só que esse caminho tem um custo alto e quase sempre injusto. Ele abre espaço para acusações sem prova, para punições irreversíveis de inocentes ou não, para escaladas de vingança e para uma sociedade em que a violência se torna linguagem aceitável de correção. O que nasce como revolta contra a brutalidade pode terminar reproduzindo a brutalidade, apenas com outra justificativa.
Outro cenário é o fortalecimento do poder paralelo. Ele não aparece, em geral, porque seja “mais justo”, mas porque é mais rápido, mais temido ou o único que aparece, quando a justiça e o Estado se ausentam. Quando as instituições falham, grupos criminosos se apresentam como se fossem ordem: criam “regras”, cobram “respeito”, oferecem “proteção” e punem quem desobedece. Para quem vive sob medo, isso pode parecer uma forma de organização, mas é uma organização baseada em coerção, não em direitos. E a diferença é decisiva: a justiça estatal, quando funciona, tem limites, ritos, possibilidade de defesa, mecanismos de controle. O poder paralelo opera sem transparência, sem apelação, sem garantia. Ele não repara a ausência do Estado; ele a explora.
O efeito mais profundo, porém, é psíquico e cultural: a perda do sentimento de pertencimento a um mundo comum. Quando as pessoas concluem que “a lei é para uns e não para outros”, instala-se um tipo de fratura íntima: a sensação de que não há contrato social, apenas territórios de privilégio e zonas de abandono. Isso corrói vínculos, alimenta ódios, incentiva a indiferença e reduz a vida coletiva a uma disputa por sobrevivência e influência. Uma sociedade assim não fica apenas mais violenta; ela fica mais desconfiada, mais polarizada, mais propensa a aceitar soluções autoritárias, “qualquer coisa que funcione”, mesmo que custe liberdades e direitos.

Por isso, diante de casos que comovem e indignam, a questão não é só “punir alguém”: é restaurar a confiança de que existe um caminho legítimo para a verdade e a responsabilização. Esse caminho passa por instituições que funcionem com firmeza e proteção real a quem colabora, mas também por uma mobilização social que não abandone a ética no meio do caminho.
A indignação precisa ser sustentada com lucidez: cobrar resposta, cobrar investigação, cobrar transparência, sem transformar a dor em licença para novos abusos.
Em termos coletivos, justiça não é apenas a sentença final. Justiça é também o processo que não se deixa capturar por medo ou dinheiro; é a coragem institucional de proteger quem fala; é o compromisso público de dizer: “a vida, humana ou animal, não é descartável; e ninguém está acima do pacto comum”. Quando esse compromisso se mantém, a revolta encontra canal. Quando ele falha, a revolta vira combustível, e fogo, como sabemos, pode aquecer ou incendiar.
Tristes tempos os nossos.
#JustiçaPorOrelha
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Ana Roxo
Atendimento clínico em Psicologia Analítica e Terapia Floral, online, para todo o Brasil e exterior.
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